A Divina Comédia e a tragédia da dignidade médica

A “Divina Comédia”, escrita por Dante Alighieri no século XIV, é uma obra-prima literária que rasga os véus do tempo e as fronteiras da literatura, tornando-se fonte de inspiração para múltiplas áreas do saber – inclusive a prática médica. À primeira vista, pode parecer improvável relacionar as jornadas dantescas pelo Inferno, Purgatório e Paraíso com o exercício da Medicina. No entanto, se fizermos uma análise mais profunda revelaremos paralelos simbólicos, éticos e humanos entre a trajetória do poeta em busca de redenção e o caminho percorrido por profissionais da saúde.

A jornada do poeta médico

Guiado pela sabedoria milenar de Virgílio, Dante percorre os caminhos da eternidade em busca de compreender o funcionamento do desconhecido. De forma semelhante ao poeta de Florença, o protagonista médico guiado pelo conhecimento científico e sustentado pelos alicerces da ética viaja pelos sofrimentos da humanidade: doenças, traumas e medos. Cada atendimento médico é um convite à intimidade da alma humana e suas particularidades, trazendo à tona todas as incertezas que envolvem a fugaz vida terrena.

Diferente do que o nome nos sugere atualmente, a Comédia clássica – mesmo que Divina neste caso – não vem para nos mostrar simplesmente o que é jocoso, mas sim aquilo que há de mais miserável no gênero humano e com ele, refletirmos sobre nosso papel neste mundo. No Inferno, Dante encontra almas que anseiam por serem percebidas e ouvidas. O médico, tal qual o poeta, deve saber romper a superficialidade da queixa e dos sintomas físicos, para alcançar também os dramas psicológicos e sociais. A escuta caridosa e o olhar atento permitem ao profissional compreender a totalidade do ser humano, promovendo uma abordagem integral e humanizada. Da travessia pelo Purgatório surge a esperança de transformação, elemento essencial no processo de reabilitação e superação da doença.

A inquietude daquele que se propõe a cuidar

A jornada dantesca é também uma busca incessante pelo conhecimento e pela verdade.   Na Medicina, o compromisso com a atualização, a pesquisa e o questionamento refletem essa mesma inquietação. Afinal, a busca científica visa não apenas curar, mas entender a complexidade da vida e, por vezes, aceitar os limites impostos pela natureza e pelo tempo.

Em sua última etapa pela eternidade, o poeta nos leva a conhecer o Paraíso, fonte constante da esperança e plenitude para aqueles que sofrem. Mesmo não sendo capaz de decidir o destino das almas e compreender a brevidade da vida, o médico é chamado a ser instrumento na realidade que está inserido – cultivando a esperança: seja no tratamento paliativo ou na celebração da cura e do renascimento após a doença. 

Talvez escrever essas palavras seja mais simples do que compreender todo o paralelo que podemos traçar entre a Divina Comédia e o exercício da medicina. Resta-nos então aceitar nossa jornada com humildade e caminhar junto com Dante através dos mistérios da vida. A jornada, às vezes dantesca admito, é o símbolo que nem sempre nos dá uma resposta, mas ao menos faz-nos prosseguir.


Autor: Matheus S. Fassarella Médico pela Faculdade Multivix, Pediatria pela Santa Casa de Misericórdia de Vitória, Preceptor de Residência Médica em Pediatria pelo Hospital Infantil de Vitória (HINSG), Matriciador pela Prefeitura de Vila Velha e professor do PS Zerado.

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